quarta-feira, 18 de março de 2009

Reino de Dragões


O sol mostrou a cara revelando um dia como outro nessa existência de vida urta.Mesmo alvorecer, os mesmos passáros na minha janela, o mesmo cheiro do pão que vinha da padaria da esquina, as mesmas paredes azuis, o mesmo lustre de resina laranja, a mesma cama baixa, o mesmo corpo, o mesmo pé, a mesma mão, a mesma alma, a mesma mente cansada e azucrinada. Resumindo essa minha ladainha diária, tudo igual.
O panda rosa anuncia que é hora de sacudir a areia dos cabelos e encarar essa nova folhinha do calendário.
Edredon ainda quente me chama de volta, nós olhamos por uma eternidade de algodão sintético, lhe acaricio as tramas e digo que logo mais eu volto para seu colo sedutor, mas só mais tarde, ele entende e esfria. Recolho seu corpo cansado e o espreguiço dando saculejadas firmes, com ele em meus braços rumo para o lado ensolarado da casa o estiro no varal molhado pelo orvalho. Beijo-lhe delicadamente a epiderme e saio. Em meu caminho encontro empertigado com sua pose de general,Manfred meu doberman altivo e confiante de si, rondando e ronronando em suas pernas está Maria Deusa uma gata tão negra que nem se compara a fria ônix. Todos de pelos negros e olhares no infinito, somos um trio perfeito, reconhecidos pelo queixo erguido destemido. Assim somos nós. Manfred fora presente de um desconhecido que passava perto do bistrô onde estava sentada olhando o rio, ele o desconhecido falava coisas sobre dragões camaleões que podiam ficar inviseis quando queriam, e o que o pacote que ele trazia no colo fora presente de um rei dragão que ele havia conhecido a muito tempo, mas o rei do alto de sua majestade disse para ele que desse aquele presente para um desconhecido que parecesse digno e peculiar no meio da multidão contemporanea guiada por falsos profetas. Me confessou mas tarde que se decidira por mim, quando vislimbrou Maria Deusa deitada em uma nesga de sol em cima da mesa, disse em tom de segredo que pessoas que conseguem conviver passificamente com feras são deuses para os dragões. E agora quase sussurrando,revelou que quando a viu rolando e brincando com minha mão não teve dúvidas de minha natureza arisca. Não sabia se agradecia o elogio ou se lhe dava um safanão, resolvi ficar em silêncio.
O desconhecido era mesmo fascinante suas falas eram de uma segurança profunda, dessas que só encontramos em filosofos e poetas. Antes de dirigir a palavra à minha pessoa me olhou despindo minh'alma, sustentava olhar e andava tal qual felino. Parou diante de mim, - suas palavras ficaram queimadas em minha pele-, "Salve ó descendente do mais puro sangue prata, dou graças aos céus por ter te encontrado", dito isso tomou minhas mãos e depositou nelas uma tulipa carmim.Estava tão enebriada pela sua aura que ralhei seriamente com um garçom que o enxotava, já dizia o poeta que para comprar aliados bastam elogios, e que elogio, se aquilo foi um elogio.
Convidei-o a se sentar e tomar algo comigo, oferta essa que foi negada veementemente e com um aviso, " Jamais coma algo que não feito por ti, eles podem querer fazer casaco com a tua pele". Assenti com a cabeça.Então ele tirou da bolsa arroxeada, que tinha uma forma amorfa, uma jarra dois copos e algo que parecia ser um vasilhame, pois um copo na minha frente e fez menção de me servir de sua beberagem. Levantando o queixo e fazendo um olhar de superioridade, disse o que ele havia me dito segundos atrás.
Sorria e sacudia a cabeça, " Sabia que não havia me equivocado, sabia que estava diante...", sua voz foi sumindo, até que somente seus lábios se moviam. Guardou um dos copos, e no que ficou sobre a mesa derramou um líquido esverdeado de consistência estranha, mas pela cara que fazia parecia ser um licor dos deuses. Bebia e ria, ria e bebia.Com a mão esquerda segurava firmemente um copo de vidro fosco, havia entalhes por toda a superfícia fria do vidro, eram desenhos de formas
desconhecidas, beiravam o arabesco. Sua forma era curiosa, tinha a base fina e boca larga, assim como uma rosa que há muito desabrochou. O líquido que ele bebia fazia reflexo na mesa, de acordo com seus movimentos uma luz esverdeada se formava.
Pousou traquilamente o copo na mesa e fitou Maria Deusa, que estava dormindo no parapeito da ponte atrás de mim, o corpo estirado e a cauda caída que ia de lá para cá tal qual pêndulo de rélogio antigo. A cabeça apoiada nas duas patas dianteiras, tinha uma expressão tranqüila provavelmente sonhava um grande gramado repleto de pardais. Levantou um pouco a pálpebra direita e encarou o estranho, talvez percebera que estava sendo observada. Se encararam por breves segundos, até que ela voltou para seu gramado.
O embrulho cor de mostarda que estava em seu colo mexeu, alisou-o e o pacote voltou a ficar quieto.
Aquilo estava me preocupando, e se o que acabara de se movimentar dentro do pacote fosse uma criança, uma criança roubada que ia ter seu fim em uma cerimonia de sacrificio humano, ou se fosse um animal perigoso, ou até mesmo um filhote dos tais dragões. Logo me dei conta de quão absurdos eram meus pensamentos. Então voltei minha atenção para as roupas que ele vestia.
Não estava sujo, mas tinha as roupas um pouco puídas pelo tempo, assim como sua pele. Vestia o que parecia um grande casaco marrom usado para dias de neve, nele havia inúmeros bolsos, todos cheios, sua cor estava desbotada e alguns remendos se faziam visiveis, bordado no ombro direito dormia um libélula roxa. Mas tarde eu viria a saber que aquele inseto era para ele muito caro, primeiro por ser belo e segundo por ser um dos animais que os dragões tinham como domésticos.
Por debaixo do casacão vestia uma camisa roxa, ela marcava os contornos de seu corpo magro, seria uma camisa normal se não fosse pela gola, tinha uma grande decote em V, dele pendiam alguns babados brancos que iam até a altura do umbigo. Esta ao contrário do casaco era nova, brilhante sem nenhum emendo.
Usava calças de tecido grosso, poderia ser um jeans, mas não era, era algo que eu desconhecia, era cinza, mas um cinza brilhante, não tinha nenhum bolso, pelo menos na parte da frente. A calça assim como o casaco marrom, era velha, estava bastante desbotata.
Para fechar o conjunto calçava sapatos de salto, não sapatos de mulher, sapatos de homem, assim como os homens da corte de antigamente usavam, eram pretos e refulgiam com o sol de tão lustrados, por fecho tinha uma fivela prata com forma de sepente.
Percebendo que eu analisava suas roupas sorriu e assumiu um ar superior como se estivesse coberto de ouro.

— Faz necessário estar bem vestido quando se visita a corte real...

Parou abruptamente quando o pacote gemeu, olhava com ternura para

ele.

— Creio que é chegado o momento, como já lhe disse eu tinha que escolher alguém para dar aquilo que o rei havia me dado, e enquando lhe vi o céu se abriu sobre mim. Então tudo o que havia me sido dito fez sentido.
Mas, antes deves saber que depois de o ter em mãos não poderá se desfazer, seja qual for o motivo.
Estava tão fascinada com toda aquela pompa que meneei a cabeça em sinal de aprovação.
Levantou da cadeira, seus gestos pareciam ensaiados. Primeiro levantou a mão, pegou o pacote com a outra com a outra e pé ante pé parou na minha frente, pegou sua mala, depositou o pacote no meu colo, deu as costas e se retirou, antes que pudesse dizer algo ele se misturou na multidão e foi embora.
Com o coração aos pulo, pousei o pacote no meu colo, Maria Deusa agora estava sentada na minha frente, olhava com interese aqule embrulho mostarda.
Não aguentando de curiosidade abri e qual não foi minha surpresa quando dentro dele vi um filhote de Doberman de olhos altivos.


"O estranho não vestia farrapos, estava sujo mas não vestia

farrapos(...)"

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