
Terça a noite dia de sair de ver pessoas, era uma data especial, ou talvez não fosse, não me recordo.
Tinha vários amigos ao meu redor, uma delas estava presa em seu vestido rubro. A outra estava liberta num freneis de copos de líquidos amarelos.
Eram gritos de felicidade, numa epopeia pela piada mais engraçada, mais furtiva.Jogos de infância que inseridos nesse ambiente nada dúbio se transforma em diversão de homens.
Não sei por que cargas d’água minha cabeça pairava por entre nuvens tempestuosas de pensamentos ordinários. Decidi, por fim, colocar meu alter-ego no comando da situação e, repito, ele ficou bêbado e não eu.
Bebi o fruto de meu esforço, mas valia a pena pela sensação de voo cativo.
Estávamos em um grupo, melhor, bando de 10 pessoas, ou mais ou menos, não me recordo.
Os bares me deixam sensível.
Quantos enamorados foram esquecidos e acharam no bar sua dor?
Quantos homens mataram seu salário por uma bebida?
Quantas mulheres comemoraram a sordidez da infidelidade bem armada?
Pessoas providas de sentimentos devasso encontram em copos vazios, que antes eram, cheios seu ritual de sofredor.
Deve-se, depois de perder sua mulher, entrar num bar, numa rispidez triste, abandonado e cão sem dono, pedir qualquer bebida que seja e sofrer, sim, meu amigo, e mostrar-se mulher ou homem ao aguentar sua dor, doer pra ser homem, esta é nossa essência.
Não tive tempo para elucidar nenhum pensamento meu, mas rememoro alguns traços da noite arteira.
As garrafas cresciam numa rapidez petulante, me deixavam zonzas indo em vindo em meio a cantos de escravos de Jó. Jogadas no chão, estacaram numa ereção sem tampa, sem conteúdo.
Na mesa havia um mar, não exagero aqui, no qual juro que poderia morrer afogada.
Lá estava, perante a minha surpresa de menina sonhadora, o tácito sentimento de perda. Este fora brindado com sorrisos, meus inclusive, num vociferar de gritos dos copos machucados. Tentei me exortar por meio de palavras, de músicas, mas era tarde demais pra mim. Seria uma noite cega. Confrontei, sem ter forças para tal, minha vertigem. O carinho tenaz ludibriava meu anseio e, mais uma vez, minha dor fez-se pulsante. Chorava na sua agonia de traída, num pranto sorridente. Eram lágrimas os meus sorrisos. Era dor que me dava forças para sorver mais e mais. Era alegria a minha tristeza. Viramos copos, num enterro dos bons modos.
Indo sempre ao banheiro, claro. Calcula-se que andei cerca de uma rotação da Terra se juntar minhas idas e vindas do alívio da privada.
Cansada, abatida, feliz na loucura da tristeza, apaguei, sem antes ver a nota no boletim.
E, posso garantir baby, passou bem longe do zero. Inalei o restante de bebida, numa infatigável luta Romana. Fui derrotado, sem antes ter deixado uma mazela de presente para minha sobriedade. Cheguei em casa, sabendo disto apenas por acordar no meu colchão, transformando a noite em vultos passageiros, deitei morta, sem dor, sem alegria, sem vida e caí, num imenso tédio emocional.
Acordo, não antes de beber um copo d’água, refeito, mulher, menina, feliz. E, numa complacente despedida do sentimento que habitou tantas noites insones, digo, com receio de dizer: “Acho que o amor fica no estômago. Vomitei ontem e hoje acordo só. Eu vomitei o amor! Eu vomitei o amor!” Numa histeria digna de pobre que ganha na mega-sena, percorri o apartamento silencioso, acordando todos, num monótono alarme de nostalgia. O interfone toca, vou atender a censura dos gritos e, para minha surpresa, a voz diz: “ Caro amigo, percebi que descobriste que este mito de amor no coração é conversa fiada. Agora que sabe em qual quarto dorme o amor, peço, por favor, que não diga a ninguém.” Não entendo este frémito de egoísmo, quando ela, a voz, termina. “ Por razões claras, Senhor, não acho que seria viável um mar de amores jogados pra fora.” Entendo, por fim, que esta voz tem receio de perder o amor, guardado na barriga de uma incógnita, que alguém sente por ele. Bastardo, grito, bastardo enamorado da reciprocidade! E bato o interfone numa falta de ar.Mais uma revelação é concebida: É nos pulmões que o ódio habita.
Isso não me impede de sofrer, eu sofro e como sofro, vomitei meu amor, por medo por dor.
Mas dessa vez eu quero ver o fruto de meu amor e escárnio. Sei que aqueles que vomitaram sabem que seus desejos proibidos se divertem em outras camas que não as suas, eles sabem, assim como eu o sei.
Mesmo vendo não se deixa de amar.
Mesmo matando não se deixa de sonhar...
( Esse texto num é continuação do de cima!)

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