quarta-feira, 24 de junho de 2009

Verdade seja dita


"A grande diferença entre as pessoas neste mundo não é entre quem é rico e pobre, bom ou mau.
É entre quem tem ou teve prazer no amor e quem nunca teve prazer no amor, apenas observou, com inveja, inveja doentia."
(Doce pássaro da juventude - Tennessee Williams

terça-feira, 23 de junho de 2009

José Guimarães Rosa in Manuelzão e Miguelim


Dito, mesmo você acha, eu sou bobo de verdade?
- É não, Miguilim, de jeito nenhum. Isso mesmo que não é. Você tem juízo por outros lados...

segunda-feira, 22 de junho de 2009

A Entrevista



- Hein? Água? Sim, aceito. Gelada, sim... Por favor. Você sabe se demoram muito para vir me buscar? Tô nervoso. Nunca dei entrevista para a televisão. Nunca achei que minha vida fosse interessante o suficiente. (pausa) É você quem vai me maquiar? Não? Hummm... Eu aguardo. (pausa) Você sabe porque me chamaram aqui? Querem que eu fale da gravidez que eu tive? Eu não falo sobre isso. Se for para falar sobre isso eu vou embora agora... (exaltando-se) Eu estou calmo! Não fique dizendo para que eu me acalme. Eu não estou nervosa, digo, nervoso. (pausa) Será que ainda vai demorar para me chamar? A que horas começa o programa mesmo? Nunca dei entrevista para a televisão. Eu vou falar sobre o meu trabalho, né? Como? Sobre a gravidez? Eu já não disse que eu não falo sobre isso? O que é que vocês poderiam querer saber sobre isso? Foi uma gravidez normal!!! Bom... Quase normal. (exaltando-se) Sim, o único fato distinto foi por eu ser um homem... Um homem!!! (gritando) Por favor, pare de falar sobre isso... Há anos que eu não falo sobre esse assunto... Eu vim até aqui para falar sobre o meu trabalho. Ninguém quer saber do meu trabalho? É uma notícia que não vende? Minha vida não é interessante? O povo quer ouvir sobre coisas engraçadas? Coisas... Engraçadas... Minha gravidez é uma coisa engraçada? Pois bem, então eu vou lhes contar uma história engraçada... Que começa com a minha gravidez. Como eu engravidei? Oras, da maneira normal... Eu já fui uma mulher. (com ironia) Você sabe como é que uma mulher engravida, não é? (muda de tom) Eu nasci no corpo errado. Sempre fui um homem no corpo de uma mulher... Mas isso já faz tanto tempo. (chora) Está vendo? É por isso que eu não gosto de falar sobre essas coisas... (com irritação) Ai, por favor... Não faça todas essas caras e bocas que você me irrita. Eu não deveria estar aqui... Me disseram que a entrevista era sobre o meu trabalho... E agora isso? Coloquei o meu melhor terno... (pausa longa) Esse era o terno que eu estava usando no dia em que eu o encontrei morto... Já faz tanto tempo... Lembro de tê-lo pego nos braços e chorado sobre o seu corpo. E tentado reanimá-lo, e... Ele vivia reclamando de que as pessoas o apontavam na rua... Que as pessoas colocavam apelidos nele... - Olha, lá vai o filho do viado! - E riam... - Por onde será que você saiu quando nasceu? - E riam... E riam... E jogavam pedras. Até que um dia uma das pedras o acertou na cabeça. (pausa) Que foi? Você não quer mais ouvir a história? (com ironia) Mas agora que ela está ficando tão interessante... (mais ironicamente) Você não queria uma história engraçada? Imagine como eu achei engraçado quando encontrei o meu filho caído com a cara no chão. Eu estava lavando a roupa em casa e senti que algo estava errado. (seca) Eu era a mãe dele. (chora) E quando eu o encontrei na frente de casa, ele já estava morto. Ninguém teve coragem de gritar por socorro... Eu o peguei nos braços... E ele já estava morto. Morto. (seca) Desculpe, eu não devia ter colocado esse terno hoje. Mas você não tem nada a ver com isso, não é? Você só precisava de uma história engraçada para colocar no seu programa de TV. Hein? Água? Não obrigado... Eu não preciso da sua água.

***Texto escrito para o Núcleo de Dramaturgia do SESI Paraná como exercício que tinha a seguinte indicação: escrita de um monólogo a partir de duas imagens, criando um percurso de transformação entre a primeira e a segunda.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Non, Je Ne Regrette Rien

Edith Piaf

Composição: Michel Vaucaire / Charles Dumont

Non... rien de rien...
Non... je ne regrette rien
Ni le bien qu'on ma fait,
Ni le mal - tout ça m'est bien égal!

Non... rien de rien...
Non... je ne regrette rien
C'est payé, balayé, oublié,
Je me fous du passé!

Avec mes souvenirs
J'ai allumé le feu,
Mes chagrins, mes plaisirs,
Je n'ai plus besoin d'eux!

Balayé les amours
Avec leurs trémolos
Balayés pour toujours
Je repars à zéro...

Non... rien de rien...
Non... je ne regrette rien
Ni le bien qu'on ma fait,
Ni le mal - tout ça m'est bien égal!

Non... rien de rien...
Non... je ne regrette rien
Car ma vie, car mes joies,
Aujourd'hui, ça commence avec toi!

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Pandora


Eu que me estilhaço em ti,
em ti me estilhaço
estilhaço-te
eu que sou externa quebrada
que tenho mundos possíveis e imcopossiveis
que me desfaço ao menor toque externo
eu que protejo minhas faces espelhadas com uma fina camada de tecido envelhecido
eu que amo meu mundo, minhas dores e amores
Espelhos refletem minha realidade fragmentada
cada pedaço de um eu possível
cada fragmento de uma memoria inexistente e existente em outras áreas do cérebro
eu que degusto as areias de ampulhetas de sangue
eu que venero deuses de plástico e alumínio
eu que escondo personas
desejo
mortes
assassinatos
eu que te vejo em meus atos
eu que assim falida e quebrada
imagino cenas de contos de fadas
onde meu invólucro se faz personagem principal
de cenas inventadas
e contadas por pessoas aleatórias e por mim providas de nexo
Acasos de estrelas decadentes
que insistem em fazer surgir momentos fractais em minhas esquinas
meus paises distantes e próximos
sempre cercada por uma eterna dicotomia paradoxal
eu que fotografo meus muitos eus com cameras de algodão doce
eu que filmo as vidas que pude ter tido
e que tenho
e destenho
que jogo no lixo
e reciclo
eu que tomo comprimidos de tempo comprimido
que deixo a vista fechaduras trancadas
eu que não me revelo
que não falo de mim
mas sim de minhas vidas alternativas
de meus muitos eus
minhas muitas verdades
meus muitos olhares
eu que contenho multidões
que atuo com meu duo
que faço rimas pobres
sobre príncipes que me resgataram em uma realidade paralela
eu que matei
ressuscitei
eu que fugi com o circo
que amei homens
que odiei mulheres
que odiei homens
que amei mulheres
que amei mulheres
eu que roubei
eu que preguei
que costurei
que construi
que pintei
que ensinei
eu
apenas um eu
externo fragmentada
em cacos acetinados de realidades diferente
eu que me vejo em cada rosto
em cada olhar
em cada página virada e retorcida
em cada esquina
em cada lágrima
em cada parto
em cada alasão
em cada beco
eu que sou muitas
desprovidas de mim