
- Hein? Água? Sim, aceito. Gelada, sim... Por favor. Você sabe se demoram muito para vir me buscar? Tô nervoso. Nunca dei entrevista para a televisão. Nunca achei que minha vida fosse interessante o suficiente. (pausa) É você quem vai me maquiar? Não? Hummm... Eu aguardo. (pausa) Você sabe porque me chamaram aqui? Querem que eu fale da gravidez que eu tive? Eu não falo sobre isso. Se for para falar sobre isso eu vou embora agora... (exaltando-se) Eu estou calmo! Não fique dizendo para que eu me acalme. Eu não estou nervosa, digo, nervoso. (pausa) Será que ainda vai demorar para me chamar? A que horas começa o programa mesmo? Nunca dei entrevista para a televisão. Eu vou falar sobre o meu trabalho, né? Como? Sobre a gravidez? Eu já não disse que eu não falo sobre isso? O que é que vocês poderiam querer saber sobre isso? Foi uma gravidez normal!!! Bom... Quase normal. (exaltando-se) Sim, o único fato distinto foi por eu ser um homem... Um homem!!! (gritando) Por favor, pare de falar sobre isso... Há anos que eu não falo sobre esse assunto... Eu vim até aqui para falar sobre o meu trabalho. Ninguém quer saber do meu trabalho? É uma notícia que não vende? Minha vida não é interessante? O povo quer ouvir sobre coisas engraçadas? Coisas... Engraçadas... Minha gravidez é uma coisa engraçada? Pois bem, então eu vou lhes contar uma história engraçada... Que começa com a minha gravidez. Como eu engravidei? Oras, da maneira normal... Eu já fui uma mulher. (com ironia) Você sabe como é que uma mulher engravida, não é? (muda de tom) Eu nasci no corpo errado. Sempre fui um homem no corpo de uma mulher... Mas isso já faz tanto tempo. (chora) Está vendo? É por isso que eu não gosto de falar sobre essas coisas... (com irritação) Ai, por favor... Não faça todas essas caras e bocas que você me irrita. Eu não deveria estar aqui... Me disseram que a entrevista era sobre o meu trabalho... E agora isso? Coloquei o meu melhor terno... (pausa longa) Esse era o terno que eu estava usando no dia em que eu o encontrei morto... Já faz tanto tempo... Lembro de tê-lo pego nos braços e chorado sobre o seu corpo. E tentado reanimá-lo, e... Ele vivia reclamando de que as pessoas o apontavam na rua... Que as pessoas colocavam apelidos nele... - Olha, lá vai o filho do viado! - E riam... - Por onde será que você saiu quando nasceu? - E riam... E riam... E jogavam pedras. Até que um dia uma das pedras o acertou na cabeça. (pausa) Que foi? Você não quer mais ouvir a história? (com ironia) Mas agora que ela está ficando tão interessante... (mais ironicamente) Você não queria uma história engraçada? Imagine como eu achei engraçado quando encontrei o meu filho caído com a cara no chão. Eu estava lavando a roupa em casa e senti que algo estava errado. (seca) Eu era a mãe dele. (chora) E quando eu o encontrei na frente de casa, ele já estava morto. Ninguém teve coragem de gritar por socorro... Eu o peguei nos braços... E ele já estava morto. Morto. (seca) Desculpe, eu não devia ter colocado esse terno hoje. Mas você não tem nada a ver com isso, não é? Você só precisava de uma história engraçada para colocar no seu programa de TV. Hein? Água? Não obrigado... Eu não preciso da sua água.
***Texto escrito para o Núcleo de Dramaturgia do SESI Paraná como exercício que tinha a seguinte indicação: escrita de um monólogo a partir de duas imagens, criando um percurso de transformação entre a primeira e a segunda.