
Andando pela estrada de flamboians vi uma diminuta noz, toquei sua casca gravada pelo mundo ,logo meu tato se apaixonou por ela, amor a primeira vista. Sua textura áspera e sedosa entretinha-o por noites sem fim. Costumava brincar entre meus dedos avidos por seu corpo pequenino e marrom. Seu interior tilintava e fazia burburinhos sempre que lançada ao ar e quando caía de encontro a minha pele alva e sedenta por seu toque. Ela tinha uma curvinha no canto superior direito, que ia dar em um microscópico sulco. Ali era seu Jardim do éden, eu poderia ficar para sempre naquele pedacinho de paraíso. Principalmente porque a noz se mostrava extremamente vulnerável e ansiosa por carinho. Meus dedos iam e vinham deixando pelo caminho um turbilhão de ligações nervosas em frenesi. Quando ficava cansada esperava ver minhas mãos em concha para se aninhar e ali ficava dormitando horas a fio. Enquanto eu acariciava suas formas curvas. E se por acaso eu também dormisse e parasse com afagos, ficava impaciente e se jogava no chão, fazendo assim com que eu acordasse. Quando seu corpo delicado tocava o chão nessa dança suicida, um barulho quase mudo me despertava. Preocupada e envergonhada pela minha distração pedia desculpas e a cobria de mimos. O sol dava voltas no céu, a lua ia e vinha e eu já não dormia, com medo de machuca-la. Sendo assim pude me dedicar a ela. Meu tato, meu corpo já não podia ficar sem toca-la, meus dedos estavam carentes viciados, nesse amor unilateral. Mas o tempo se faz cruel, de tanto sentir tuas linhas, os sulcos e nervuras estavam sumindo, o ácido de minha pele a estava corroendo, dia após dia, minha tão prestimosa noz. Assim como ela perdia seus desenhos, a ponta de meus dedos iam perdendo identidade, eles e eu... Eu a estava matando, apesar de ama-la a matava pouco a pouco, como isso era possível, me torturava em buscas de respostas. Optei pelo que achei que fosse melhor, mantive distancia, agora ela dormia em almofadas de veludo carmim. O meu anseio era de que se recuperasse, para que voltasse a se divertir em minhas mãos. Mas a cada dia ela ia definhando, seu marrom ficou cinza, meio preto, meio algo que não sei. Um dia exausta e doente da vida,dormi... Quando acordei, ela estava negra, necrosada,muda, morta. Verti lágrimas apenas de sal.
Mas não me dei por vencida, procurei outras nozes, amei meus dias com minha pequena noz, mas não com elas, de noz em noz, procurei teus sulcos, comprei, comi, dezenas delas. A dor foi tomando meus dias meus meses, meus anos, até que passei a mata-las pelo simples desejo de mata-las para que nunca em hipótese nenhuma, algumas delas viesse a tomar seu lugar no meu mundo.

Um comentário:
Delicado e Ácido
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